"24 horas" para neoconservadores
sérgio dávila articula, quase em ritmo de teoria conspiratória, a animação do neoconservadorismo com o seriado "24 horas":
"24 horas" é o sonho de consumo dos neocons
é apenas impressão ou jack bauer, o agente de "24 horas", se firma a cada nova temporada da série de tv como o james bond da geração neocon? não sou fã do programa, mas volta e meia dou umas bicadas nos episódios para ver o que o membro mais conhecido da unidade contraterrorismo dos eua está fazendo para salvar o "mundo livre".
cada vez que assisto, sinto um frio na espinha. na quarta temporada, ele chegou a pedir demissão de sua função para poder torturar em paz um suspeito, que acabara de ser liberado por pressão da ong "anistia global". justificou, assim, ao vivo, em cores e para milhões, a teoria defendida por cada vez mais gente (boa, inclusive), segundo a qual, diante de um cenário de "contagem regressiva", em que uma confissão pode salvar milhões de vidas, a tortura não só deve ser praticada mas também autorizada pelo judiciário.
é no que acredita, por exemplo, o advogado-estrela alan dershowitz, professor de harvard e defensor de casos midiáticos como o de o.j. simpson, citando legislação parecida em vigor em israel. o problema é que tal cenário, o da bomba prestes a explodir e de um único suspeito sob a guarda do governo que sabe como localizá-la e desarmá-la, nunca saiu do campo dos filmes, pelo menos nos eua, enquanto a tortura é bem real e continua a comer solta nas prisões secretas pelo mundo.
na sexta temporada, que estreou semana passada aqui e chega ao brasil em março, a apologia à tortura continua linda, leve e solta, apesar de estudos recentes de universidades importantes apontarem que a prática é falha quando o objetivo é arrancar do torturado informações confiáveis. é que, depois de um tempo no pau-de-arara, quase todo o mundo confessa qualquer crime que não cometeu -menos jack bauer, claro; no começo da sexta temporada, ele é libertado pelos chineses após passar por meses de tortura sem revelar segredo algum.
a importância do seriado "24 horas" não é pequena, e a ligação entre o que faz seu herói sem culpa e o anseio reprimido de um povo, amedrontado diariamente pelo governo por uma guerra impossível de ser ganha, não pode ser diminuída nem creditada apenas aos partidários das teorias conspiratórias. afinal, quem paga o cheque de us$ 10 milhões por temporada para o ator kiefer sutherland é a fox. e a fox é a mesma parente do braço noticioso fox news, o "diário oficial" televisivo da casa branca, ambos de propriedade do megaempresário de direita rupert murdoch.
para quem ainda acha que o colunista vê muito pêlo em pouco ovo, vale a pena lembrar de um seminário que aconteceu aqui em washington em junho de 2006. era um evento patrocinado pela entidade conservadora heritage foundation, que contou com a presença do secretário de segurança interna, michael chertoff, um dos juizes da suprema corte, clarence thomas, e teve a mediação do comentarista ultraconservador rush limbaugh. o tema? "'24 horas' e a imagem dos eua na luta contra o terrorismo - fato, ficção ou não importa?"entre os palestrantes, experts em terrorismo e contraterrorismo, membros do governo bush -e três atores do elenco do seriado, entre eles o próprio jack bauer, quer dizer, kiefer sutherland.


1 Comments:
seus comentários fazem sentido... considerando que as pessoas misturam realidade e fantasia, logo a tortura não parece tão ruim; pois Bauer está vivo em cada capítulo do seriado 24hs, mesmo depois de torturado...
mas os USA já estão torturando e mexendo nas leis para que isso seja legal...
Se a tortura desse certo, Israel estaria em paz, pois Israel tortura árabes em busca de informações sobre os terroristas da Hesbozlá...
Os estados Unidos já teriam vencido a guerra do Iraque... mas pelo visto a guerra só se intensifica, mesmo depois de vários soldados iraquianos terem sido torturados.
Um detalhe é que a maioria dos torturados s~]ao inocentes e acabam confessando coisas que não aconteceram para se livrarem de tanto sofrimento.
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